quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O que tem de Brasileira a Academia de Letras?



 Beto Vianna e Pedro Perini-Santos

Em 1990, Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe assinam o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Em 2008, decreta-se que o acordo passe a vigorar a partir de 2009; e sua efetivação, como prática escolar e editorial, ocorre em 2010. Foram 20 anos de amadurecimento de uma mudança polêmica. Guardiã do bem escrever, a Academia Brasileira de Letras ratificou e instrumentalizou a nova ortografia através do VOLP, o vocabulário ortográfico da língua portuguesa.
O bom de escrever um artigo a quatro mãos é que se pode discordar dentro do texto, até o ponto da contradição. Somos aqui dois linguistas, e o acordo ortográfico está longe de merecer unanimidade. Se eu (Beto) engulo o acordo pelas benesses de uma padronização dos livros didáticos impressos no Brasil e em Portugal, para países que importam esse material, como os africanos e o Timor, eu (Pedro) tenho minhas dúvidas sobre tamanho esforço numa empreitada que mais serve aos interesses de editoras que das populações às voltas com a escrita do português. Para não falar de umas desnecessidades introduzidas pelo acordo, como a queda do acento diferencial (ponto em que, aliás, eu e eu comungamos).
O que estamos de acordo, sobre o acordo, é que isso nada tem a ver com “ataque à língua nacional” (para os detratores do acordo) ou “resgate da identidade lusófona” (para seus defensores). A “Língua Portuguesa” como símbolo transnacional, identidade de povos a ser preservada, imortalizada e, quiçá?, embalsamada a ferro e fogo numa pedra imemorial, é um inútil malabarismo retórico para quem, como nós, se debruça sobre o fenômeno vivo, dinâmico e relacional a que chamamos língua. Além do mais, ortografia não é língua, mas uma técnica (que pode ou não ser aprendida pelo usuário da língua) aplicada ao registo escrito, tomando como modelo uma ou mais variantes da língua. Mudem lá a tal ortografia, e aqui em Minas continuaremos a dizer “djizê”, e, em Lisboa, “dzâr”.
No que eu e eu estamos de pleníssimo acordo é sobre como a Academia Brasileira de Letras erra feio no seu entendimento do que é e do que não é importante quando o assunto é língua. Reza em seu estatuto, que a ABL tem “por fim a cultura da língua e da literatura nacional”. Ou seja, para a ABL, há uma única língua e literatura no país. Como na imagem medieval da donzela casta defendida pelo cavaleiro (em que é a castidade, e não a donzela, o objeto de tanto cuidado masculino) a Academia mostra-se excessivamente ciosa de um modelo engessado de língua, ajudando a marginalizar usuários reais e diversos das línguas brasileiras, variantes ou não do português.
A ira contra o livro didático Para uma vida melhor é exemplar da postura da Academia. Na esteira de dúzias de intelectuais pelos jornalões afora, os imortais meteram a ripa no livro, com o argumento nocivo (dada a auto-investida autoridade da ABL) para milhões de brasileiros, de que a única e boa língua portuguesa é a prescrita na norma padrão. Como o que é ruim para o Brasil é ruim para Minas, nossos acadêmicos estaduais copiaram e colaram o ataque: “A apologia do erro; “nós vai” ou “os livro”, não levará o país e sua juventude a ascender socialmente com oportunidades profissionais, introduzindo-os no vasto universo cultural”, diz o secretário geral da AML. Não é curiosa, secretário, a coincidência entre décadas de preconceito contra os “maus falantes” e a pobre situação em que nos encontramos hoje? Perdoai os imortais, Senhor, eles não sabem o que falam. O combate aos estrangeirismos é outro lado dessa moeda podre. Em recente artigo no jornal O Tempo, um jurista vaticina que a “ameaça de colonização começa com a usurpação da língua. A história mostra que Roma tendeu à decadência quando seu povo desprezou o latim puro, acolhendo o castrense.” Segue exortando a ABL, sediada no Petit Trianon, no Rio, a defender a pureza do idioma, sonhando haver um ou dois vocábulos do português sem nascença em outra língua.
Tem coisa mais útil a ser feita por uma Academia, Brasileira, e de Letras.
A diversidade linguística e cultural do país merece mais cuidado, e um deles é parar de falar que no Brasil só há uma língua. Muitas das línguas faladas no Brasil estão morrendo, e isso não é choramingo piegas, mas uma ameaça cotidiana às pessoas, com consequências reais de discriminação escolar, social, médica e racial. Hoje, fala-se em racialização da linguagem, pois se associam, ao uso de línguas periféricas, julgamentos de valor moral, comportamental e estético. Mesmo no caso do português, é urgente mudar nossa atitude política. Tradicionais menções ao falar “errado”, “feio”, que “dói aos ouvidos” ignoram o fato de que as línguas são (bem) aprendidas na família e na comunidade, não nos bancos escolares (ao contrário da escrita e da norma padrão), ajudando a manter a maioria da população no seu devido lugar de baixo. Se nós, citadinos, não passamos pelo constrangimento de não nos fazermos entender falando o português brasileiro, é porque outras línguas permanecem escondidas, encabuladas e desconsideradas por instuições de referência. Como a ABL.
Distinto é o caminho seguido por nossa prima Acalan, a African Academy of Languages, empenhada no reconhecimento das línguas africanas, postura política e educacional de inclusão de grupos sociais e étnicos isolados por não serem habilitados na língua oficial de seus países. Dos 20 países de maior diversidade linguística, 19 são africanos, com quase metade das 6.000 línguas do mundo, altos índices de pobreza e populações que em sua maioria não falam a língua oficial, milhões de pessoas que precisam estudar, ler, escrever e negociar usando uma língua estranha. No Brasil, são 200 línguas, a maior parte pouco faladas e ainda menos escritas. Isso ocorre com as línguas indígenas e nas comunidades afrodescendentes, européias e asiáticas que compõem nossa diversidade cultural e linguística. Quando uma língua morre, morre muita coisa junto: receitas farmacológicas, relatos históricos, códigos de conduta, taxonomias naturais, tradições alimentares, poesia, música, o escambau. Morte lenta e sofrida na carne por quem vive e participa da língua.
Ou bem se muda o nome para Academia do Português Padrão, ou muda o foco da instituição. Se for Brasileira a Academia, que se preocupem mais os acadêmicos com as línguas de solo pátrio. Se isso for pedir muito, que se ocupem ao menos com os destinos dos seus falantes. Nós, brasileiros, agradeceríamos eternamente. 

Publicado no jornal O Cometa Itabirano, agosto/2011

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Para uma língua melhor

Pedro Perini-Santos e Beto Vianna


Como linguistas por formação e ofício, sentimo-nos no dever de comentar sobre os alardeados erros no livro de português que o MEC avalizou. Vamos explicar de forma simples para que o Clóvis Rossi, o Merval Pereira, o Arnaldo Jabor, a Viviane Mosé, o Milton Jung, o Alexandre Garcia, o Carlos Monforte, o Reinaldo Azevedo e o Cristovam Buarque entendam. O que eles divulgaram em seus espaços midiáticos teve muita repercussão. Sobre os ditos erros do livro “Para uma Vida Melhor”, o que eles propuseram está errado, pelos seguintes motivos:

O livro tematiza junto a alunos do programa Educação para Jovens e Adultos algo que acontece em todos os países: as pessoas são julgadas pelo jeito que falam. Isso se chama preconceito linguístico e tem consequências graves. Se sentem vítimas de preconceito linguístico, muitas pessoas deixam a escola, se esquivam de consultas médicas, abandonam reivindicações trabalhistas e não conversam com os filhos e com os colegas de trabalho. Quando nos sentimos constrangidos pela fala, pelo corpo ou pela forma de pentear o cabelo que não está no padrão extremamente rígido de nossas relações, nos calamos e sofremos com isso.

Não existe “norma culta”; isso é um erro conceitual grave e difundido como se fosse aceito pelos linguistas. Usar a expressão “norma culta” é tão infeliz quanto falar que existem “bairros nobres”, porque se supõe a existência do oposto, e a esse oposto, atribuem-se valores negativos.

O que a linguística fala das línguas é o seguinte: nada mais sendo variável - um problema neurológico ou problemas emocionais extremos - todo jovem e adulto aprende a variante linguística de sua comunidade e de sua família. Esse é um fato linguístico; nenhuma variante linguística é errada. E mais: a escrita não é a língua; é um sistema normatizado de codificação que pode abarcar uma ou mais variantes de uma língua. A escrita sempre difere da língua falada nos mais variados aspectos, inclusive da variante padrão.

E o que a linguística fala da escola é: a escola deve ensinar aos alunos o uso de um padrão normativo nacional, cuja referência é o uso linguístico universitário urbano. Talvez haja divergência quanto à escolha de seu caráter urbano, mas não há a menor possibilidade de um linguista sensato falar que erros de concordância nominal (como “os bicho”) ou verbo-nominal (como “acabou ontem as provas”) sejam ataques à gramática da língua portuguesa do Brasil; isso são ocorrências linguísticas que fazem parte do nosso uso corriqueiro.

O Brasil pratica preconceito linguístico há tanto tempo que achamos isso normal, e o resultado educacional aí está. Crianças que aprendem que sua família e seus amigos “falam errado”, o que gera problemas emocionais para a vida toda. Se não for má-fé, é pelo menos curioso ver tanta gente culta defender a manutenção do atraso para grande parte da população.

Por que falar dos “erros” no material didático? Considerar a fala espontânea, as variações regionais e pessoais é o melhor caminho para amadurecer o uso do texto escrito e do texto oral. Em geral, as pessoas falam e se expressam muito bem. Os desafios escolares são ajudar os alunos aprenderem a utilizar a variante padrão nos contextos adequados, adequar o texto oral à forma escrita, aprender a interpretar e argumentar a partir da leitura de textos diversos e fazer amadurecer nos alunos a consciência de que a gente deve se expressar do jeito apropriado à situação comunicativa que se vive.

Manifestações gramaticais prescritivas, como as que ocorreram nos meios de comunicação, geram agressividade, mal-entendidos e aumentam a arrogância com a qual tratamos as pessoas que de alguma forma desviam do modelo social padrão. No caso específico do livro, uma simples pitada de diferença no uso da fala citada no livro justificou uma violência verbal contra o livro de dimensões histéricas.

Finalmente, só se pode falar sobre aquilo que conhece e que se entende. Os jornalistas e o engenheiro que lemos, ouvimos e nomeamos aqui não entendem bulhufas de linguística. Eles erram na terminologia técnica; erram na interpretação do texto do livro; não conhecem a literatura científica; distorcem informações e não têm formação apropriada para falar sobre o tema.

O engenheiro e os jornalistas citados neste artigo deveriam pensar um pouco no que falaram (ou antes de falar), porque as consequências de sua fala são graves. Muita gente acredita nesses formadores de opinião, e o preconceito linguístico gera sofrimento e atrapalha a educação. Além de errada, a opinião por eles divulgada é nociva.

publicado no jornal Hoje em Dia, 09/06/11

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

III Seminário Ciência e Cognição


Tema: Novas Fronteiras Cognitivas
Rio, 16 a 18 de março de 2011

O III Seminário Ciências e Cognição: Novas Fronteiras Cognitivas volta-se para a promoção da articulação de ideias, experiências e conhecimentos entre os professores, pesquisadores, acadêmicos e profissionais das áreas de educação e neurociências. Com este propósito, o NuDCEN (Núcleo de Divulgação Científica e Ensino de Neurociências), da UFRJ, e a revista científica Ciências e Cognição, da Organização Ciências e Cognição, organizam e apresentam o evento. Local: Casa da Ciência - R. Lauro Müller, 3, Botafogo, Rio de Janeiro - RJ

mais informações no site do III SCC

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Por causa da mulher

Pedro Perini-Santos e Beto Vianna


No seu discurso de posse, Dilma Rousseff referiu-se ao cargo que assumia usando aquele termo que vem dando pano pra manga: “Venho para abrir portas para que muitas outras mulheres também possam, no futuro, ser presidenta.”. E a pergunta surge e ressurge: é certo ou errado dizer presidenta? Nossa resposta é: está certo e argumento não falta.

Primeiro, todos entenderam. Não houve ambiguidade, desinformação, incorência ou impropriedade no uso do termo. Seria incoerente se ela dissesse que vai abrir as portas para que outras mulheres possam ser jogadoras de futebol, ou fechar as portas para outras mulheres que almejam a presidência.

Segundo argumento: não é a língua que muda, mas são as pessoas que mudam a língua. Mudanças ocorrem na medida do uso. E a entrada de novas palavras em uma língua pode ser bastante rápida. Não devem ter mais que 30 anos as expressões brasileiras deletar, x-frango e beijódromo, e elas funcionam muito bem. Mudanças nas marcações de gênero são mais lentas. Estima-se que a substituição do sistema masculino/feminino/neutro do latim, para o sistema masculino/feminino do português careceu de pelo menos dez gerações para se efetivar. E presidenta não é palavra nova nem um novo gênero: é palavra existente usada em gênero existente. O que é novo é o uso do gênero feminino nessa palavra em particular.

O terceiro argumento diz respeito à educação. Os veículos de comunicação têm, em geral, a necessidade de padronizar o uso de itens e formas gramaticais. Mas a língua tem outros usos. Certos comentaristas de gramática têm uma postura muito agressiva em relação às mudanças na língua. Isso não é nada bom. Resulta em um sentimento de baixa autoestima linguistica, apoiado no uso de gramáticas escolares normativas, tecnicamente falhas, dificultando as dinâmicas escolares.

Outro argumento: o uso de presidenta não vai esculhambar o barraco. Não vamos passar a falar eleganta nem estudanta. Faz sentido dizer presidenta como tem sentido dizer médica ou sargenta, pois botar a marca do feminino na profissão é usual quando mulheres passam a exercê-la. Nem toda língua é assim. Em francês europeu, diz-se “madame le professeur Julie Fougère” (ao pé da letra: senhora o professor Júlia Samambaia). Já os canadenses de fala francesa usam, como nós, o feminino: “la professeuse”.

Um contra-argumento ruim, que tem circulado por aí, é que a palavra presidente é formada por derivação do verbo presidir, tal como pedir/pedinte, impedindo o uso do feminino. Esquecem de dizer que o resultado é uma forma nominal, que em português sempre pode ganhar marca de gênero. Governanta também vem de governar, mas ganhou marca de feminino para se referir a uma atividade exercida exclusivamente pelas mulheres. Presidenta tem motivação ainda mais clara. O termo aponta para a primeira brasileira no cargo, dando dupla justificação à marca de feminino: o momento histórico e a luta pela igualdade profissional da mulher.

Por fim, a entrada de novos itens e novas formas é sinal de saúde e força de uma língua. O árabe, o japonês e o inglês primam pela eficiência na incorporação de palavras estrangeiras, adaptando-as às suas fonéticas e alfabetos particulares. Ganham assim mais recurso de expressão, mais versatilidade e abrem as possibilidades de escolha de seus usuários. Em vez de criticar o uso de presidenta, basta pensar que temos duas formas na mão. Que façamos a nossa escolha.


Publicado em O Tempo, 05/02/2011

domingo, 17 de outubro de 2010

A Ab Surdez é nossa

Parece não haver, entre os membros das comunidades Urubu Kaapor, uma distinção entre deficiência e eficiência auditiva, ou pelo menos, fica claro que essa distinção, se houver, não faz uma diferença na prática, como é sabido e vivido pelos surdos-mudos de nossa sociedade não-Urubu. Isso porque, ao contrário dos nossos surdos, que necessitam adequar-se política e lingüisticamente (pelo aprendizado de uma língua de sinais, pelo acesso a pessoas, processos e objetos específicos, pela “educação oral” e pressão por instrumentos e políticas públicas afirmativos), são os membros da sociedade Kaapor, em conjunto, que se “ensurdecem”, falando todos a língua de sinais Kaapor: o método submete-se ao sujeito. Surdos Kaapor não são surdos, são monolingües. Mesmo essa diferença não faz a diferença que, na prática, abre mais e melhores portas (ceteris paribus), àqueles, que, na sociedade brasileira, são falantes de uma segunda língua de prestígio, como o inglês ou o espanhol, ou simplesmente dominam a “norma culta” e uma cultura letrada.

Nem mesmo ao olhar aguçado e à disposição sempre generosa de Darcy Ribeiro pareceu evidente aquilo que acontecia bem debaixo de seu nariz (considerando, é claro, que nos anos 40-50 já havia tal disposição lingüística Kaapor em relação à surdez). Em seus Diários índios (RIBEIRO, 2006) que relatam o trabalho de campo do antropólogo entre os Kaapor nos anos de 1949 a 1951, Darcy conta-nos sobre a “velha surda-muda” Ñambú:

Essa velha é a graça da aldeia, muito trabalhadeira, está sempre desmanchando e retecendo as redes de sua gente, fazendo cordas de carauá, torrando farinha, enfim, trabalhando ativamente todo o dia e sempre séria. Às vezes lhe dá a veneta de brincar, aproveita uma contenda de crianças, se mete no meio e sai correndo das pedradas que lhe dão nas canelas. (RIBEIRO, 2006, p. 221).

Veja que Darcy descreve, perfeitamente, um acoplamento estrutural configurando um domínio lingüístico, uma ecologia de corpos: Ñambú, os demais índios, o tecer as redes, o torrar a farinha, as crianças, e até as pedradas na canela. Apenas para Darcy tais elementos surgem abruptamente (“Às vezes lhe dá na veneta”; “... e se mete no meio...”), pois já se encontram configurados (embora sempre reconfigurando-se) na rede de interações Ñambú-outros Kaapor. Para os índios, não há surpresa, e Ñambú só é a “graça da aldeia” para Darcy pois apenas o antropólogo tem dificuldade em articular sua própria versão de “surda”, com o acoplamento observado de Ñambu com o restante da tribo.

Os Kaapor constituem um bom exemplo da importância de considerarmos outras versões pois, assim como a única versão possível das emoções não é a passividade e a reatividade, a única versão de linguagem disponível também não é a de uma resposta a meio-ambientes cambiantes, ou a corpos ou discursos cambiantes, gerando distinções necessárias, como surdo-ouvinte, e mudo-falante.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Nós e o espaço relacional (biológico) da linguagem


Costumamos considerar o comportamento algo facilmente mutável, ou, pelo menos, mais maleável do que a “constituição biológica”. Se levarmos a sério o caminho explicativo das abordagens sistêmicas, no entanto, a situação é bem outra. Modos de vida, ou seja, as relações estabelecidas com o meio, são modos específicos de realizar a organização - seja humana, símia ou mamífera, no nosso caso -  e necessariamente conservadores, pois implicam a própria manutenção de nossa condição de ser-e-estar-vivos (durante a ontogenia) e a continuidade da linhagem (no fenômeno da reprodução). Mesmo no estabelecimento de uma nova linhagem, o organismo conserva parte do modo de vida, pois realiza sua ontogenia inicial no contexto do modo de vida parental. Nossa constiuição orgânica, ao contrário, pode variar imensamente: pode variar tanto quanto permita a realização do nosso viver. Se prestarmos atenção a um grupo qualquer de seres humanos, nos impressionamos com a diversidade de anatomias, estaturas, fisionomias e fisiologias, conformações físicas as mais variadas que, no entanto, prestam-se todas a um modo de vida comum. Mesmo entre as mais variadas culturas humanas é conservado um modo de vida que tem a ver com a história de nossa linhagem, e que nos diferencia de outros organismos. Não é isso que distingüimos quando dizemos que só o humano “tem linguagem”? Ou “tem cultura”? Ou uma existência espiritual ou simbólica? Com os organismos não-humanos ocorre o mesmo. A diversidade de formas da natureza sempre impressionou Darwin, e, em A origem, ele diz que uma compreensão abrangente da evolução passa por descobrirmos as “Leis da Variação” (DARWIN, 2002, p. 130-156).

Ao contemplar outra organização que também faz parte de nós, humanos, como a de grandes símios, identificamos rapidamente as enormes diferenças nos atributos físicos, ou, pelo menos entre “nós” e “eles” (nem todos sabemos distingüir um orangotango de um gorila, apesar de sermos mais aparentados ao gorila que o organgotango). Se atentarmos para os modos de vida que foram conservados em nossa antiga linhagem de grandes símios (que remonta a mais de 10 milhões de anos) nos impressionamos com o fato de seres tão diferentes realizarem coisas tão parecidas: a criação amorosa dos filhotes, a intricada rede social, o manuseio de alimentos e de outros objetos, a confecção (manual) deinstrumentos e muitos outros modos de conhecer, ou seja, de operar em interação com os elementos do entorno que nos permitem realizar nossa organização de grandes símios.

Como um tipo particular do modo de vida - a relação organismo-meio - temos a relação estabelecida entre dois ou mais organismos, a co-ontogenia (VIANNA, 2006, p. 308-313). Tal como em relação ao entorno, dois organismos em acoplamento estrutural irão mudar suas estruturas de modo correspondente, na interação. Se essa história de relações durar o suficiente, se a interação for recorrente e houver uma recursividade nessa interação (ou seja, se as mudanças em cada um dos organismos em interação servir para a mudanças subseqüentes nos dois sistemas) temos uma coordenação de ações ente os organismos, que é o estabelecimento de um domínio lingüístico, base da formação de um sistema social. Assim, se atentarmos, não para o “conteúdo” ou a “forma” dessas relações, para os elementos que são utilizados no proceso de interação e a maneira como são utilizados, mas prestarmos atenção na recursividade do processo interacional co-ontogênico, estaremos decrevendo os fundamentos biológicos do fenômeno da linguagem. 

O principal estranhamento entre minha própria abordagem e a da Biologia do Conhecer, é que, nesse sistema explicativo, é preciso não apenas que haja coordenações de ações (o domínio lingüístico que descrevi acima), mas coordenações de coordenações de ações, ou seja, que o próprio domínio consesual do encontro recorrente (de gestos, posturas, sons entre outros) seja utilizado, recursivamente, no processo de coordenar ações dos organismos. Para Maturana, é na linguagem (ou “linguajar”; MATURANA, 1997b, p. 175) que surge o humano, e, como modo de conservar sua organização, o humano vive nesse “fluir de interações recorrentes” (MATURNA, 1997b, p. 168). Concordo com Maturana, e concordo principalmente sobre o que ele diz sobre “denotação” (MATURANA, 1997, p. 150):

[Denotação] não é uma operação primitiva. Ela requer concordância - consenso - para a especificação tanto do denotante quanto do denotado. Se a denotação, portanto, não é primitiva, não pode ser tampouco uma operação lingüística primitiva.

É por concordar com a Biologia do Conhecer sobre o que é uma operação primitiva - o domínio consensual - que considero a realização do domínio consensual humano na linguagem um caso particular do espaço relacional co-ontogênico em que vive todo e qualquer organismo. Tudo aquilo que argumentei sobre a cognição e a evolução - ou seja, que apontar para informações prévias no mundo ou na mente não explica o fenômeno do conhecer, e apontar para informações prévias no ambiente ou no genoma não explica o fenômeno da deriva evolutiva -, serve, igualmente, para a linguagem. 



Darwin, Charles. A origem das espécies. Tradução de Eugênio Amado. Belo Horizonte: Itatiaia, 2002
Maturana, Humberto. Biologia da linguagem: a epistemologia da realidade. Tradução de Cristina Magro. In: MAGRO, Cristina; GRACIANO, Miriam; VAZ, Nelson (Orgs.). A ontologia da realidade/Humberto Maturana. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1997. p. 123-166.
Maturana, Humberto. Ontologia do conversar. Tradução de Cristina Magro e Nelson Vaz. In: MAGRO, Cristina; GRACIANO, Miriam; VAZ, Nelson (Orgs.).  A ontologia da realidade/Humberto Maturana. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1997b. p. 167-181.
Vianna, Beto. Nós primatas em linguagem: relações lingüísticas como um processo biológico. Belo Horizonte, 2006. Tese (Doutorado em Estudos Lingüísticos) - Faculdade de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Ponto Pacífico na linguagem


Uma antropóloga do século XXI, falante nativa do inglês, desembarca em uma ilha do Pacífico com o intuito de estudar os costumes dali e pouquíssimo conhecimento da língua local. Talvez ela tenha uma vaga idéia da família lingüística a que aquele falar pertence, talvez ela tenha uma vaga idéia do tipo de vida que os ilhéus levam. Se a antropóloga assumir que quaisquer tentativas de interação são inúteis, pela dessemelhança dos hábitos e da língua, a pesquisa já nasceu condenada, é claro, e é portanto, preciso achar meios de interagir. Mas a antropóloga, que, embora “verde” no trabalho de campo, tem um bom trânsito na literatura em etnografia, não duvida que sua própria cultura é diferente da de seus sujeitos, de que sua própria língua é diferente da deles. O que torna a negociação difícil, trabalhosa, no entanto, não são essas diferenças por si mesmas, mas o processo de inter-relação, em que, entre uma floresta de diferenças óbvias, faz-se necessário encontrar caminhos, clareiras, atalhos, esses bem mais sutis. É necessário um “esforço interpretativo”, não apenas na elaboração da descrição que a antropóloga irá fazer de seus sujeitos mas no próprio momento da interação.

Após uns dois anos no campo, ao voltar para sua terra e para a vida acadêmica com os dados debaixo do braço, a antropóloga vai reencontrar um mundo de relações totalmente distinto. Vai comunicar sua pesquisa em uma linguagem bem sua conhecida, não só o inglês mas todo um modo de interagir próprio da academia. Nesse outro mundo não há menos necessidade de negociação diária que no primeiro, mas a diferença é a longa história de relações vivida pela antropóloga em seu “nicho cultural”, qualitativamente diferente daquelas poucas centenas de dias no meio de perfeitos estranhos (não estou querendo relativizar muito minha própria história inventada, mas é claro que percursos são percursos, não importa se longos ou breves: uma atitude emocional mais positiva da pesquisadora em relação aos ilhéus que em relação a seus pares sempre pode reverter a facilidade com que ela se relaciona em um e outro espaço).

A pergunta simples, cuja resposta é bastante consensual entre os cientistas humanos é: onde está a diferença entre aqueles dois mundos? Certamente não na língua ilhéu, por maior que seja o número de seus fonemas “exóticos”, de cliques e glides nasais. Também não poderia estar na cultura da ilha, ainda que seus habitantes comam suas próprias crianças ou experienciem um relativismo cósmico, para nos lembrarmos dos Hopi de Benjamin Lee Whorf (1998). Tampouco a diferença está nas peculiaridades da língua inglesa ou da cultura ocidental, e, já me adiantando a uma terceira hipótese, também não iremos encontrar a resposta na diferença entre esses dois modos de vida particulares (chás às 5 horas versus reuniões coletivas de ingestão de bebidas mágicas, por exemplo). Uma boa evidência de que nenhuma dessas três alternativas explica a desenvoltura desigual da antropóloga nos dois mundos é que os habitantes da ilha também tendem a sentir-se mais à vontade às voltas consigo mesmos. Para usar um jargão acadêmico contemporâneo, conforto e desconforto são estados emocionais situados, dependentes da interação.

Esse é ponto pacífico, ou deveria ser, no estudo da diversidade humana. A despeito de qualquer teoria universalista da linguagem, da cultura e da cognição humanas, a diferença entre as relações que se dão dentro de uma mesma cultura con-vivida e entre culturas distintas é uma experiência recorrente demais para ser questionada, e poucos estudiosos contemporâneos diriam que isso se deve a uma peculiaridade da cultura do pesquisador (uma proposta que seria, hoje, surpreendente, se levarmos em conta a atual diversidade cultural entre os pesquisadores), da cultura do pesquisado ou da relação específica entre ambas. Aliás, se formos suficientemente minimalistas quanto à diversidade de língua e cultura, não é nem mesmo preciso ir ao Pacífico Sul. Estou convencido que é menos trabalhoso dialogar com minha filha adolescente que com os amigos dela, embora eu não (ou nem sempre) culpe, por isso, os seus hábitos lingüísticos particulares - ou os meus. Afinal, minha filha demonstra muito menos esforço conversando com as mesmíssimas pessoas.

trecho de Nós primatas em linguagem, Vianna, 2006, ps. 39-41